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Educação

Ex-interno é aprovado no vestibular e sonha em curar mãe que está cega

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Adolescente de 17 anos, de Itapetininga, ficou 6 meses na Fundação Casa.
Jovem passou em agronegócio na Fatec; tratamento da mãe é feito nos EUA.

Jovem sai da Fundação Casa ao lado da avó (esq.) e mãe (dir.) (Foto: Caio Gomes Silveira/G1)

Os erros ficaram no passado, pelo menos os erros que levaram um adolescente, de 17 anos, a ser um menor infrator por seis meses detido na Fundação Casa em Itapetininga (SP). Agora que ele passou no vestibular da Faculdade de Tecnologia do Estado de São Paulo (Fatec) para o curso de agronegócio, o foco está em ter sucesso profissional e realizar o sonho de curar a mãe que está cega. “Estou muito feliz, após a prova não imaginava que iria passar. Tenho que aproveitar a oportunidade, estudar, trabalhar e quem sabe um dia no futuro consigo levar minha mãe para ser curada?”, sonha.

Marcos* (nome fictício), a mãe dele, de 44 anos, e a avó, de 67 anos, conversaram com o G1 no último dia em que o rapaz estava apreendido na Fundação Casa, em 8 de fevereiro. Sem conseguir enxergar o rosto do filho, a mãe abraçava o jovem e reparava em todas as partes dele. “Você anda comendo bastante, hein, menino (risos)”, disse ela. A avó também não conseguia desgrudar do jovem, que apesar dos mais de 1,85 metro de altura, continua sendo como um menino para elas.

A mãe do adolescente ficou cega de um olho em 2013 e perdeu a visão do olho direito em setembro deste ano. As duas vezes pelo mesmo motivo, o descolamento da retina causado por diabetes, de acordo com ela. “Já procuramos o Banco de Olhos de Sorocaba (BOS), mas o tratamento não é oferecido aqui no Brasil”, lamenta. Segundo a aposentada, os médicos orientaram que o tratamento é oferecido somente nos Estados Unidos da América (EUA).

Tanto amigo que eu tinha lá fora e nenhum veio me visitar. Só mesmo a família está com a gente em todos os momentos, nos bons e ruins”
Adolescente que passou na Fatec

O jovem foi detido em julho de 2016 por tráfico de drogas. O contato com a maconha vinha já de alguns anos, mas a relação “comercial” durou pouco, segundo ele. “Comecei a vender para ter dinheiro rápido, também porque achava que não seria pego, que não iria dar em nada. Comecei muito também pela influência dos amigos”, alega o rapaz que já teve o irmão mais velho preso também por tráfico de drogas. O imão está solto há anos e não se envolveu mais com o crime, conta Marcos*.

Ao mencionar os amigos, ele desabafa sobre uma das coisas que aprendeu na Fundação Casa. “Tanto amigo que eu tinha lá fora e nenhum veio me visitar. Só mesmo a família está com a gente em todos os momentos, nos bons e ruins”, afirma.

O psicólogo Jessifran Silveira Rosa, que atendeu o menor uma vez por semana durante a internação, ressalta a forma positiva como lidou com a cegueira da mãe. “Ele mostrou resiliência, que é saber superar as dificuldades, e muita força de vontade. Ele não desistiu depois que a mãe dele ficou totalmente cega, pelo contrário, se esforçou ainda mais para conseguir chegar ao objetivo. Ele é um jovem proativo, comunicativo e esforçado, com certeza ele ajudará a família dele”, elogia.

Para fazer vestibular, jovem estudou por conta própria (Foto: Caio Gomes Silveira/ G1)
Para fazer vestibular, jovem estudou por
conta própria (Foto: Caio Gomes Silveira/ G1)

Estudos
Além de aprender a importância da família, Marcos* afirma que reconheceu a necessidade de estudar durante o período de internação. Ao entrar na Fundação Casa, o rapaz já estava no 3° ano do ensino fundamental. Ele conta que, como não levava a sério as aulas da escola estadual, teve apenas alguns meses para se preparar para o vestibular da Fatec.

“Não imaginava fazer a prova antes, mas refleti e decidi dar um rumo para a minha vida. Então tentei aprender as minhas principais dificuldades, que são português e matemática, para fazer o vestibular. Os professores me passaram livros e eu passava parte do dia lendo sobre essas duas matérias quando não estava nas aulas. No fim acabou dando certo”, comemora.

O adolescente passou em 26° na lista de classificados do vestibular de agronegócio do 1° semestre deste ano. Foram 152 inscritos para 40 vagas. Ele tirou nota 52,5 de 100. “Escolhi esse curso porque na cidade há muita oferta de trabalho, muitas empresas do ramo rural, e porque dá para subir na carreira. Depois de fazer a prova pensei que não tinha passado, mas graças a Deus estava errado”, revela.

Adolescente ficou seis meses detido por tráfico de drogas (Foto: Caio Gomes Silveira/ G1)
Adolescente ficou seis meses detido por
tráfico de drogas (Foto: Caio Gomes Silveira/ G1)

Ele foi o primeiro jovem da Fundação Casa em Itapetininga a passar em um vestibular durante a internação. O diretor da unidade, Alberto Darakdjian, aponta que o foco demonstrado pelo garoto pode servir de exemplo para os outros internos. “Ele mostrou que todos podem conseguir uma oportunidade. Não importa se vem de escola pública, se acabou sendo detido e vindo para cá. Mas é preciso querer, porque ele só conseguiu passar no vestibular depois de estudar e de se esforçar.”

Além de estudar à noite na Fatec, Marcos* conseguiu uma vaga de estágio no Projeto Casa em Itapetininga, que pertence à Fundação Casa. O trabalho é na área em que estuda. “Vou poder aplicar na prática o que vou aprender na teoria na sala de aula. Mexer com plantio e tudo que envolve agronegócio”, descreve animado.

Liberdade
Durante a entrevista ao G1, a direção da fundação recebeu a decisão judicial sobre o fim da internação do rapaz. O adolescente voltou a ter liberdade e junto com ela a responsabilidade. Responsabilidade de seguir o mesmo caminho trilhado por milhões de pessoas. Como a mãe e avó dele, o caminho de fazer o certo apesar das dificuldades.

“Marcos*, lá fora você vai se tornar um adulto. É claro que você sempre terá sua família para te apoiar, mas agora ninguém mais ‘pegará na tua mão’ para acompanhar você. Não tem mais escola, não tem mais Fundação Casa. Boa sorte”, aconselhou o diretor da unidade durante a despedida.

Fonte: G1

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